A fotografia é a arte de transformar momentos em memórias, e as mulheres na fotografia brasileira têm sido as guardiãs dessas histórias.
Mas você já parou para pensar sobre o papel das mulheres na fotografia brasileira? Quem foram as pioneiras? Quais desafios elas enfrentam hoje?
O artigo “Um olhar sobre a fotografia feminista brasileira contemporânea”, publicado na Revista Estudos Feministas, analisou a relação entre a fotografia de mulheres brasileiras e o feminismo.
O estudo traça um panorama da inserção das mulheres nas artes visuais no Brasil e no mundo, destacando como a fotografia tem sido um meio de expressão para pautas feministas.
No entanto, apesar da crescente visibilidade, as fotógrafas ainda enfrentam desafios estruturais para conquistar espaço e reconhecimento na fotografia artística e documental.
Vamos mergulhar nesse universo cheio de luz, luta e legado! E como a exposição “Vetores-Vertentes: Fotógrafas do Pará”, em cartaz no CCBB São Paulo, ajuda a reescrever essa narrativa.
Índice
As primeiras mulheres na fotografia brasileira
Gioconda Rizzo
Gioconda Rizzo, nascida em 18 de abril de 1897, em São Paulo, destacou-se como uma pioneira entre as mulheres na fotografia brasileira, sendo a primeira mulher a abrir seu próprio estúdio fotográfico no país.

Filha do fotógrafo italiano Michele Rizzo, proprietário do Ateliê Rizzo na Rua Direita, Gioconda iniciou sua trajetória fotográfica aos 14 anos, inicialmente sem o conhecimento do pai.
Ao descobrir o talento da filha, Michele permitiu que ela trabalhasse no estúdio, fotografando mulheres e crianças.
Em 1914, Gioconda inaugurou seu próprio estúdio, o Photo Femina, ao lado do ateliê do pai, especializado em retratos femininos.
Ela inovou ao enquadrar apenas o rosto e os ombros das clientes, em vez de fotografar o corpo inteiro, e ao retratá-las com véus, ombros à mostra e arranjos de flores, utilizando o flash de magnésio.
Essas inovações fizeram sucesso entre as mulheres da alta sociedade paulistana.
Maria Brasilina de Magalhães Faria
De acordo com o artigo “Um olhar sobre a fotografia feminista brasileira contemporânea”, publicado na Revista Estudos Feministas, Maria Brasilina de Magalhães Faria foi uma das poucas mulheres mencionadas na história da fotografia brasileira no período de 1833 a 1910.
Sua trajetória está relacionada à continuidade de um empreendimento herdado, pois ela assumiu a empresa de seu marido falecido.
Maria Brasilina de Magalhães Faria era casada com Francisco Antônio de Faria, fotógrafo que, entre 1870 e 1871, foi sócio de Henrique Deslandes na firma Deslandes & Faria, com estabelecimentos em Vitória e Cachoeiro do Itapemirim.
Após o falecimento de Francisco em 20 de outubro de 1876, que deixou Maria e sua filha em dificuldades financeiras, ela assumiu o ateliê fotográfico do marido, localizado na Rua Duque de Caxias, nº 55, em Vitória.
Em 1878, associou-se a Joaquim Ayres, formando a firma Viúva Faria & Ayres; contudo, essa parceria durou menos de um ano, e Ayres permaneceu com o negócio.
No entanto, não há registros claros que confirmem se ela exerceu diretamente a profissão de fotógrafa ou se apenas administrava o negócio.
A falta de informações detalhadas sobre sua atuação reflete um padrão da época, no qual as mulheres que participavam do campo fotográfico muitas vezes eram registradas apenas em função de seus laços familiares com homens fotógrafos, o que contribuiu para a invisibilidade feminina no setor.
Esse caso ilustra como a história da fotografia foi marcada por uma estrutura que privilegiava os homens como protagonistas da produção artística e técnica.
Gertrudes Altschul
Gertrudes Altschul (1904-1962) foi uma figura pioneira na fotografia modernista brasileira. Nascida em Berlim, Alemanha, imigrou para o Brasil em 1939 com seu marido, Leon Altschul, fugindo do regime nazista.
Estabeleceram-se em São Paulo, onde fundaram a fábrica “Arteflor”, especializada na produção de flores artificiais para chapéus e roupas.

No final da década de 1940, Altschul aproximou-se do Foto Cine Clube Bandeirante (FCCB), um grupo central na fotografia moderna no Brasil.
Em 1952, tornou-se uma das poucas mulheres a integrar o clube.
Sua produção fotográfica alinhava-se com a linguagem modernista, explorando temas como arquitetura, motivos botânicos e objetos cotidianos.
Suas obras destacam-se pelas composições geométricas e experimentações com luz e sombra.
A desigualdade de gênero na fotografia
Apesar da contribuição inegável das mulheres, a fotografia ainda é um campo marcado por desigualdades. Uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP) em 2020 revelou que apenas 30% das exposições fotográficas no Brasil são dedicadas a mulheres.
Além disso, fotógrafas negras, indígenas e LGBTQIA+ enfrentam barreiras ainda maiores para alcançar visibilidade.
Segundo a fotógrafa e pesquisadora Caroline Lima, “a fotografia é um espelho da sociedade, e se não incluirmos todas as vozes, estamos reproduzindo as mesmas exclusões que queremos combater”.
Seu trabalho, focado em retratar comunidades periféricas, é um exemplo de como a lente pode ser uma ferramenta de transformação social.
Quem são as fotógrafas que estão mudando o jogo?
Estas mulheres, com suas lentes sensíveis e poderosas, registram momentos de resistência, da Amazônia ao coração de grandes cidades, enfocando a realidade de povos indígenas, negros e LGBTQIA+ em seu cotidiano e nas suas lutas sociais.
A fotografia aqui se transforma em uma ferramenta essencial para visibilizar e transformar realidades, evidenciando o papel crucial das mulheres na fotografia brasileira como agentes de mudança social.
Jacy Santos
Jacy Santos é uma talentosa historiadora e etnofotógrafa natural de Igarapé-Miri, no Pará. Desde 2015, ela vem documentando a realidade de povos indígenas, com foco na região do Baixo Tocantins.

Formada pela Universidade Federal do Pará, Jacy é pesquisadora na linha “Povos Indígenas, Memória, Representação”.
Como fotógrafa independente, ela luta para que sua arte seja reconhecida, e em 2023, lançou seu primeiro livro, “A Cura”, e em 2024, realizou sua primeira exposição individual em sua cidade natal. Seu trabalho destaca a cultura amazônida e a resistência local.
Ana Mendes
Ana Mendes, fotojornalista, antropóloga e doutoranda em artes pela Universidade Federal do Pará (UFPA), tem 39 anos e vive na Amazônia há sete anos.Com uma carreira dedicada a pesquisar e realizar projetos multimídia, ela interage entre jornalismo, arte e antropologia.

Seu trabalho se concentra principalmente na luta pelos direitos dos povos indígenas e das comunidades tradicionais no Brasil, trazendo à tona questões fundamentais para essas populações.
Sua produção inclui fotografia, vídeo e texto, sempre com um olhar atento às realidades amazônicas.
Nay Jinknss
Nay Jinknss é uma feminista negra, lésbica, natural de Ananindeua, no Pará, e possui graduação em Artes Visuais pela UNAMA. Atualmente, é mestranda em Poéticas e Processos de Atuação em Artes pela UFPA.

Seu trabalho fotográfico adota a metodologia da fotografia compartilhada e do bem querer, refletindo um pensamento contracolonial.
Como pesquisadora, ela busca questionar a construção da iconografia e do imaginário brasileiro, tensionando questões políticas relacionadas à representação e à identidade.
Tuane Fernandes
Tuane Fernandes é documentarista e fotojornalista radicada em São Paulo, conhecida por seu trabalho impactante.
Membro da agência Farpa e da comunidade Women Photograph, ela já expôs no Memorial da Resistência (2018) e na 8ª Mostra SP de Fotografia.

Além disso, realiza palestras em festivais, universidades e instituições. Seu trabalho, publicado em veículos renomados como Folha de São Paulo, National Geographic, VICE, Al Jazeera, e muitos outros, é reconhecido internacionalmente.
Andressa Zumpano
Andressa Cruz Zumpano, fotojornalista e documentarista maranhense, tem se dedicado a investigar e registrar a resistência de povos e comunidades tradicionais em situação de conflito agrário no Brasil.
Desde 2016, ela documenta a luta de mulheres e povos em defesa de seus territórios e ancestralidade, tanto no campo quanto nas cidades.

Neste ensaio, Andressa oferece um breve, porém impactante, olhar sobre os lutadores e lutadoras que estão na linha de frente dessa batalha, compartilhando suas histórias de coragem e resistência.
Julia Dolce
Julia Dolce é uma pesquisadora comprometida com a desconstrução da estética colonial na fotografia e a análise do olhar fetichista da branquitude.
Em 2021, ela foi premiada com o Prêmio Marc Ferrez de Fotografia da FUNARTE pelo projeto “Álbuns Originários”.

Com ele, trabalhou na curadoria e digitalização de álbuns fotográficos de famílias indígenas do alto Tapajós, registrando momentos de resistência, como protestos de indígenas guarani e o movimento Black Lives Matter, entre outros, com foco em conflitos socioambientais e movimentos de resistência.
Ingrid Barros
Ingrid Barros, natural do interior do Maranhão, é fotógrafa, diretora e documentarista com foco em jornalismo e audiovisual independente.
Seu trabalho é marcado por um olhar atento aos direitos humanos, às comunidades tradicionais e à cultura popular.

Para Ingrid, a fotografia vai além de capturar imagens; ela é um instrumento de transformação, criando novas narrativas que exaltam a vivência genuína e afetiva, promovendo a construção de um imaginário positivo e de resistência para corpos dissidentes.
Isis Medeiros
Isis Medeiros, fotógrafa popular e ativista de Minas Gerais, traz uma seleção poderosa sobre os ativismos no Brasil e na América Latina.

Com um olhar crítico e sensível, ela denuncia a negligência das mineradoras em Minas Gerais e se dedica à luta pelos direitos das mulheres, destacando as violências do Estado e as violações de direitos humanos.
Além de lançar o projeto “Mulheres Cabulosas da História”, ela é cofundadora do grupo Fotografia pela Democracia e recentemente lançou seu livro 15:30, que analisa os desdobramentos do crime da mineração em Mariana, 2015.
Exposição “Vetores-Vertentes: Fotógrafas do Pará” no CCBB SP
E é justamente essa diversidade de olhares que encontramos na exposição “Vetores-Vertentes: Fotógrafas do Pará”, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo.
O CCBB SP nos convida para conhecer o norte do Brasil por meio do olhar de onze fotógrafas paraenses.

Duas gerações e mais de 40 anos de materiais fotográficos, filmes, vivências afetivas, tecnologias e aromas que nos transportam até a região Nhamundá na Amazônia.

Pela primeira vez, a exposição “Vetores-Vertentes: Fotógrafas do Pará” traz cerca de 170 obras com o recorte dessas artistas sobre a Amazônia Brasileira, questões de gênero, regionalismo, reflexões sobre identidade, território e memória.

E a melhor parte: toda a exposição tem instalação aromática com seis perfumes inspirados nas mulheres indígenas.
A curadora, Sissa Aneleh é fundadora do primeiro museu dedicado às mulheres no Brasil, fundado em fevereiro de 2022, em Brasília. Este museu tem programação híbrida (presencial e virtual) em vários museus e espaços culturais pelo país e mundo, e agora, em São Paulo.
As obras de “Vetores-Vertentes: Fotógrafas do Pará” serão distribuídas pelos cinco andares do edifício do CCBB SP, iniciando pelo 4º andar e seguindo até o subsolo.
4º andar: dedicado à fotografia experimental e à manipulação de imagens analógicas, com linguagens inovadoras que dialogam com a tradição.

3º andar: trabalhos que utilizam a experimentação com imagens manipuladas digitalmente e negativos fotografados.

2º andar: destaca narrativas afro-indígenas e quilombolas, mostrando o poder da imagem como instrumento de resistência e afirmação cultural.

Térreo: a visita proporciona uma camada imersiva e sensorial com uma oca para assistirmos o filme: MUKATU’HARY em realidade expandida, baseado em um ritual real para a prática de cura.

Subsolo: por lá a exposição apresenta trabalhos em preto e branco, ressaltando a história, território e memória. As obras reforçam que a fotografia é um meio de contar e preservar histórias.

No dia da sua abertura, no dia 8 de março*, terá bate bapo com algumas fotógrafas da exposição e shows com ritmos do Pará!
*Para estas atividades, você precisa reservar ingressos no site no CCBB SP, combinado?

Por que precisamos falar sobre mulheres na fotografia brasileira?
A fotografia é uma linguagem universal, mas quem conta a história faz toda a diferença. Ao destacar o trabalho das mulheres, especialmente daquelas que pertencem a grupos minoritários, estamos não apenas valorizando sua contribuição, mas também ampliando o nosso próprio olhar sobre o mundo.
Como diz a fotógrafa Claudia Andujar, conhecida por seu trabalho com os Yanomami, “a fotografia é uma forma de amor, de compreensão, de luta”.
E é com esse espírito que convidamos você a explorar a exposição no CCBB SP, a pesquisar mais sobre as fotógrafas brasileiras e, quem sabe, a pegar uma câmera e começar a contar a sua própria história.


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